sábado, 24 de novembro de 2007

RIVELINO


Por Sergio Fontana

A Copa da Alemanha - a de 74, não a de 2006 – não teve o resultado que todo o Brasil esperava apesar de lá estarem presentes os maiores jogadores do futebol brasileiro da época.
Um encontro com o carrossel holandês – apelido da seleção da Holanda, que apresentou um futebol veloz e dinâmico, sustentado por excelente preparo físico, onde os jogadores trocavam de posição o tempo todo, atacavam e defendiam em bloco – tirou a nossa seleção da final, e a falta de motivação na disputa pelo terceiro lugar com a Polônia, nos empurrou para um modesto quarto lugar.
Roberto Rivelino, meia-esquerda criado no S.C. Corínthians Paulista, foi o capitão da seleção canarinho. Ele se destacava pela personalidade e chute (só de canhota) fortes, pelo futebol elegante e também pelo seu vasto bigode, digno de um bandoleiro mexicano. Era moda, no Brasil, um bigode daqueles, assim como era moda “cultivar” largas costeletas (suíças), a calça boca-de-sino, o cinto de couro um pouco mais largo, a corrente com medalhão de “Y” invertido (símbolo de paz e amor) pendurada no pescoço, o sapato – meio esquisito para homem - de plataforma, o cabelo comprido ou, dependendo da genética, estilo ‘black-power’.
No Auxiliadora daquele tempo, não se observava extravagâncias de nenhum tipo na aparência e no modo de vestir de alunos e professores; éramos ainda adolescentes, e os nossos professores eram, na sua maioria, os próprios padres ou aspirantes a padres, o que justificava as suas roupas e atitudes discretas. Assim, qualquer alteração de comportamento ou mudança de aparência – para melhor ou para pior – inventadas por um colega ou professor mais ousado era motivo para estrondosas gargalhadas e apelidos variados, até que fosse encontrado o mais apropriado para o caso.
Eu nem sei mais em que ano foi; se em 75 ou 76. Só sei que um dia ele apareceu com o bigode diferente; diferente do que costumava usar. Não chegava a parecer com o tal bandoleiro mexicano porque não tinha a cara de mau, mas se a tivesse não ia ficar devendo nada para o Fernando Sancho – bandidão dos filmes de faroeste italianos. Entramos pelo portão dos fundos, nos fardamos e iniciamos o aquecimento para a aula de Educação Física; algumas voltas no pátio, correndo a passos curtos e lentos. Depois a aula propriamente dita que era, na verdade, só futebol, atividade apreciada por todos os alunos indistintamente. O professor jogava junto e, respeitosamente, não usava força excessiva, nem disputava lances com os alunos que envolvessem o corpo-a-corpo, obviamente visando preservar a integridade física dos mesmos. Times escolhidos; jogo iniciado; correria para um lado e para o outro, aliada à gritaria dos jogadores pedindo para receber a bola. Quando o “Fulano” pegava a bola, vinham gritos de todos os lados: “Fulano, Fulano!”; bola com o “Beltrano”: “Beltrano, Beltrano!”; bola com o Professor Paulinho: “Rivelino, Rivelino!”. E ele não gritava, não falava e não passava a bola. Bola com ele de novo, e a gritaria: “Rivelino, Rivelino!”. E de novo a mesma reação. Um apito mais forte alguns minutos depois, marcou o término do jogo e, conseqüentemente, da aula de Educação Física daquele dia. Uns dias depois, outra aula e... mais futebol (?)
Uma volta no campo, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, ..., depois o barulho do apito interrompendo a corrida e anunciando o final da aula. As quatro ou cinco aulas seguintes foram ainda mais instrutivas: umas voltas no campo e ginástica bem puxada. Entendemos o recado, embora continuássemos, durante as corridas de aquecimento, a “gritar” em cochichos: “Rivelino, Rivelino!”

Post scriptum: Em um ou dois meses depois tudo voltou ao normal. O bigode cresceu e virou cavanhaque e os jogos de futebol da nossa turma perderam um craque da seleção, mas ganharam novamente a presença do nosso mestre da Educação Física, Prof. Paulo Roberto de Oliveira, o Paulinho.

Um comentário:

Cláudio disse...

Engraçado camarada Serginho. Eu entrei no Auxiliadora em 1973 mas não me recordo de chamarem o Paulinho de Rivelino. Sempre estudei à tarde e fazia fisica pela manhã. Tinha aqueles vestiários debaixo do Cine Ritz(o teatro do Auxiliadora)e a gente deixava as roupas lá e ia para a ginástica. O Paulinho disciplinava todo mundo, mandava fazer dez apoios de braço e fazia primeiro para mostrar aos guris que, se ele fazia a gente tinha de encarar. Uma certa vez ele me salvou de uma confusão. Me desentendi com o (José)Rogério(Vieira da)Rocha Filho, um menino como eu, mas chato de doer, filho do dono das Ferragens Rocha. A gente ia se atracar e o Rogério pegou uma pedra para me acertar. Ele dissolveu a briga, olhou para o Rogério e disse: se jogar te pego pela orelha e desço a Sete contigo até a loja do teu pai. He he he. o Rogério murchou, claro. Gostaria de saber quando ele morreu, e como ocorreu, ele estava doente? Penso que era um homem novo, talvez com uns 63 anos hoje, se vivo estivesse. Saudades daqueles tempos, do Auxiliadora, dos colegas. Sei de muitas histórias reais. Abraços, CT