domingo, 16 de setembro de 2007

CARAMURU


Por Paccelli José Maracci Zahler

O apelido não podia ser mais sugestivo: Caramuru!
Caramuru era um cara misterioso. Oficial das forças armadas,tinha se destacado em cursos especiais e isso lhe conferia bastante respeito na cidade.
Naquela época, a lambreta estava sendo substituída pelas motocicletas potentes e Caramuru chamava a atenção por passear pela cidade em uma motocicleta preta, vestido com roupa de couro e capacete pretos, e óculos escuros.Como usava bigode e era corpulento, tinha aquele ar misterioso. Logo, logo, tornou-se um personagem folclórico e alvo de piadinhas. Por onde andava, todo mundo sabia que era o Caramuru, embora poucos o conhecessem de verdade.
Aos meus olhos adolescentes, ele fazia questão do mistério.
Um dia, enquanto aguardávamos para as aulas de educação física no portão de trás do Colégio N.S. Auxiliadora, vimos a motocicleta roncando dobrar a esquina e o motorista todo vestido de preto. Sabíamos que era o Caramuru.
Quando ele estava passando exatamente no meio da meninada, um colega nosso gritou:
- Caramuru, tira o dedo do teu c...!
Todo mundo caiu na gargalhada.
Até hoje não entendo como, com o barulho da motocicleta, o capacete e a zoeira da meninada, Caramuru ouviu o grito, desacelerou a motocicleta, deu meia volta, parou e foi tirar satisfações.
Silêncio total. O cara era um armário de cinco portas.
- Quem disse aquilo? – perguntou.
- Não sabemos!
- Como vocês não sabem?
- Moço, quem disse, correu pra dentro do colégio!
Ele olhou, viu o pátio enorme e deserto, e desistiu.
- Pois digam pra ele, que ele não é homem. Se fosse homem, repetiria o que disse na minha frente.
- Sim, senhor! – respondemos em uníssono.
Ele subiu na motocicleta e foi embora para felicidade de todos.
Encontramos o nosso colega e dissemos:
- Antônio,escapaste por pouco!

Um comentário:

smquest disse...

... e quando o tal Caramuru contornou o canteiro da Marcílio Dias (entre Pres. Vargas e Mal. Deodoro), vindo em nossa direção, imaginei que a brincadeira ia terminar em pancadaria, com ameaça de morte e tudo.

Sergio Fontana